Quando a infância encontra a maternidade na realidade de jovens

 

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O Brasil registrou mais de 1 milhão de nascimentos entre adolescentes de 15 a 19 anos entre 2020 e 2022, além de 49 mil casos na faixa de 10 a 14 anos, segundo estudo do ICEH/UFPel. A taxa nacional revela grandes desigualdades regionais: enquanto o Sul apresenta 35 casos por mil adolescentes, o Norte mais que dobra esse índice, com 77,1 por mil. A disparidade se reflete na classificação dos municípios. Enquanto 76% das cidades do Norte se enquadram na faixa de fecundidade de países de baixa renda, no Sudeste essa proporção é de apenas 5,1%. No Sul 9,4%; no Nordeste 30,5%; e no Centro-Oeste 32,7%. Em Fortaleza, o fenômeno também preocupa, especialmente em áreas com menor infraestrutura social, onde o aumento da gravidez na adolescência reforça os desafios de saúde pública e equidade.

Dados do Desigual Lab, plataforma do Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor), revelam que bairros com baixos índices de desenvolvimento humano concentram os maiores números de maternidade precoce. No bairro do Pirambu, por exemplo, um em cada cinco bebês nasce de uma mãe adolescente, o que corresponde a 19% dos nascidos vivos. O cenário se repete em comunidades como Barroso (17,3%), Floresta (17,2%), Bom Jardim (16,8%) e Curió (16,6%), enquanto nas zonas mais ricas da cidade os índices são praticamente inexistentes.

As estatísticas da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) reforçam essa realidade,  até 23 de agosto do ano passado, Fortaleza registrou 1.725 nascidos vivos de mães adolescentes, sendo 69 de meninas entre 10 e 14 anos e 1.656 de jovens entre 15 e 19 anos. Isso representa uma média de 215 partos por mês, ou 7,2 por dia. Apesar da frequência elevada, não houve registro de óbitos maternos nessas faixas etárias, indicando esforços importantes na atenção à saúde dessas jovens.

Esse cenário reflete diretamente no trabalho da Associação O Pequeno Nazareno (OPN), que vem registrando um aumento significativo na procura pelos grupos terapêuticos voltados para mães adolescentes, parte do projeto Dignidade para a Infância realizado em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.  As histórias que chegam ao serviço mostram a complexidade do tema e a urgência de políticas de cuidado voltadas a esse público.

Arelly Nunes, que se tornou mãe aos 16 anos, recorda que descobriu a gravidez durante a comemoração de seu aniversário de 15 anos, momento que transformou sua vida. “Meu mundo virou de cabeça para baixo. Fui criada sem pai e hoje minha filha também cresce sem a presença paterna. Mas, mesmo com todas as dificuldades, nunca desisti de viver. Procuro sempre me ocupar e encontrar algo para fazer”, relata Arielly, que hoje, aos 19 anos, busca construir um futuro mais seguro para ela e seu filho.

Samily Costa, mãe de uma menina de quatro meses, compartilha desafios semelhantes. Diagnosticada com ansiedade e depressão, ela afirma que o apoio familiar é seu principal alicerce. “Venho de uma família formada por mulheres — minha mãe e minhas duas irmãs — e é com essa rede que consigo enfrentar as dificuldades. É assim que tenho conseguido sobreviver às adversidades”, diz. Sua trajetória evidencia como a maternidade precoce pode se somar a questões emocionais, gerando desafios ainda maiores para jovens que já vivem em contextos de vulnerabilidade.

Para Érica Ferro, assistente social do OPN, compreender a maternidade na adolescência exige olhar além dos relatos individuais. Trata-se de um fenômeno que envolve fatores sociais, emocionais e estruturais. “Mesmo quando as jovens utilizam métodos contraceptivos, não existe garantia absoluta de prevenção. É fundamental entender que a gravidez na adolescência não pode ser enxergada apenas como uma escolha individual, mas como resultado de contextos vulneráveis, da falta de informação adequada e das dificuldades de acesso a serviços de saúde e proteção”, afirma.

Em 2025, o OPN encerrou o ciclo de atendimentos dos grupos terapêuticos voltados para jovens grávidas, totalizando mais de 260 adolescentes acompanhadas ao longo do projeto. A iniciativa ofereceu acolhimento, orientação e um espaço seguro para que essas jovens pudessem ressignificar suas trajetórias, retomar funcionalidades e encontrar novas perspectivas. O legado do trabalho é uma rede de cuidado que impactou vidas e fortaleceu mães que, muitas vezes, chegaram ao serviço se sentindo perdidas, mas saíram mais preparadas para enfrentar seus caminhos.

Sobre a Associação Beneficente O Pequeno Nazareno

Fundada em 1993, por Bernardo Rosemeyer, a Associação Beneficente O Pequeno Nazareno é reconhecida nacionalmente pelo atendimento integral a crianças e adolescentes em situação de rua, bem como a suas famílias e comunidades de deslocados internos localizadas em  municípios do Norte e do Nordeste do Brasil. Sem fins lucrativos, a instituição dedica-se à promoção da dignidade, justiça e inclusão social, enfrentando preconceitos e influenciando políticas públicas para a transformação da sociedade.


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